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Por que devemos nos preocupar com a morte de abelhas

Updated: Nov 19, 2019

É muito comum associarmos abelhas com a produção de mel, mas a verdade é que o trabalho que esses animais desempenham vai muito além disso e é extremamente importante para a manutenção dos ecossistemas e produção de alimentos.

A preocupação com relação à mortandade de abelhas não é um assunto atual. Em 2006, nos Estados Unidos, apicultores já vinham notando que suas colônias estavam desaparecendo. O fenômeno foi estudado pelos cientistas e batizado de colony collapse disorder (desordem de colapso das colônias). Posteriormente, entre 2012 e 2013, foi verificado que cerca de 31% das abelhas americanas simplesmente deixaram de existir.


O mesmo começou a ocorrer na Europa, no final dos anos 1990. Durante o período, 53% das colônias de abelhas existentes desapareceram em determinadas regiões do continente. Infelizmente, o problema acabou chegando à China, ao Japão e ao Brasil, que também passaram a experimentar a ocorrência do mesmo fenômeno: o sumiço inexplicável e em massa de abelhas.


No Brasil, nos meses iniciais de 2019, apicultores de diversos estados e regiões do país já reportaram a morte de 500 milhões de abelhas.


A maioria dos casos está ocorrendo nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Somente em Santa Catarina, apicultores relataram que ⅓ das abelhas que habitavam o Estado já sumiu, enquanto no Rio Grande do Sul mais de 400 milhões de abelhas morreram apenas no primeiro trimestre de 2019.


Mas afinal, o que está fazendo com que as abelhas simplesmente desapareçam? Analisando os casos de Estados Unidos, Europa e Brasil, pesquisadores já descobriram pelo menos um culpado em comum: o uso de agrotóxicos.


Tanto nos casos ocorridos em Santa Catarina quanto no Rio Grande do Sul, foi constatado que as mortes guardam relação direta com pesticidas à base de fipronil, muito utilizados em lavouras de monocultura e em pequenas propriedades rurais.


A problemática envolvendo agrotóxicos não se restringe somente à sua toxicidade, mas também e especialmente ao modo como é utilizado.

Além do fipronil, foi apurado que agrotóxicos à base de neonicotinoides, muito utilizados por agricultores no Brasil e também na Europa, causam o mesmo efeito e também são responsáveis por provocar a morte de abelhas.


A União Europeia, inclusive, baniu o uso de pesticidas à base de neonicotinoides até que se verifique se seu uso de fato provoca a morte de abelhas. Nos Estados Unidos, por sua vez, o uso de agrotóxicos no monocultivo ocasionou uma grande redução de colmeias. Na década de 40, o país contava com cerca de 6 milhões de colmeias, enquanto hoje existem aproximadamente 2,5 milhões.



A problemática envolvendo agrotóxicos não se restringe somente à sua toxicidade, mas também e especialmente ao modo como é utilizado. No caso do Brasil, especificamente, os pesticidas são utilizados de forma incorreta na maioria das vezes, sendo aplicados nas plantações durante o dia, momento em que as abelhas estão fora das colmeias para coletar o pólen.


Os padrões de segurança estabelecidos não são seguidos e também não é feita qualquer comunicação aos apicultores, que poderiam deixar suas abelhas presas nos períodos do dia em que agricultores farão uso de agrotóxicos em suas plantações.


Contudo, apesar de a ação dos agrotóxicos ser a principal responsável pelo aumento na mortandade de abelhas, não é o único fator que está causando seu desaparecimento em massa. Existem outros elementos que, em conjunto, colaboram para o sumiço dessa espécie.


Inicialmente, pode-se citar a perda de seu habitat natural devido à ação do homem e ao avanço das mudanças climáticas, fator que também contribui muito para a morte desses pequenos animais. Além disso, por vezes os próprios agricultores se utilizam de técnicas que estressam e prejudicam as abelhas.


Tanto a monocultura quanto o manejo inadequado de colmeias atrapalha a atuação desses animais. No caso da monocultura, as abelhas acabam se alimentando de um único tipo de pólen, causando sua má-nutrição, já que cada planta possui um pólen próprio com diferentes combinações de nutrientes.


Restringindo o consumo das abelhas a apenas um tipo de pólen, consequentemente restringe-se a ingestão de nutrientes essenciais que permitem mantê-las vivas por mais tempo.


Quanto às técnicas de manejo, algumas práticas inadequadas deixam as abelhas estressadas, fazendo com que tenham seu tempo de vida reduzido. Uma delas é a utilização de uma espécie de “tapete” na entrada da colmeia, responsável por filtrar e reter o pólen coletado pela abelha com o objetivo de aumentar a produção.


Ocorre que, em virtude disso, a abelha acaba precisando deixar a colmeia mais uma vez para procurar alimento, sobrecarregando seu trabalho e resultando em altos níveis de estresse que podem levá-la à morte.


Mas por qual motivo deveríamos nos importar tanto com o desaparecimento de abelhas?


É muito comum associarmos abelhas com a produção de mel, mas a verdade é que o trabalho que esses animais desempenham vai muito além disso e é extremamente importante para a manutenção dos ecossistemas e produção de alimentos. São elas as responsáveis pela polinização da maior parte das plantas existentes, bem como de plantações de legumes, verduras e frutas.


(...) caso as abelhas desaparecessem para sempre, a agricultura e nossa alimentação, que ficaria restrita a alimentos que são polinizados pelo vento (soja, feijão, arroz, milho, batata e cereais em geral), estariam em risco.

Para se ter ideia, dois terços dos alimentos que ingerimos são cultivados com a ajuda das abelhas. Por meio do processo de polinização, grãos de pólen são transferidos da parte masculina para a parte feminina da planta, ou de uma planta para outra da mesma espécie, originando sementes cuja germinação resultará no surgimento de diversos alimentos que consumimos, tais como pepino, morango, melancia, amêndoas e kiwi.


Além disso, as abelhas também polinizam florestas nativas inteiras, conservando a existência do meio ambiente e de diversas espécies de árvores e plantas naturalmente.



Desse modo, caso as abelhas desaparecessem para sempre, a agricultura e nossa alimentação, que ficaria restrita a alimentos que são polinizados pelo vento (soja, feijão, arroz, milho, batata e cereais em geral), estariam em risco. Além disso, também perderíamos ecossistemas por completo.


Os efeitos negativos da escassez de polinizadores já puderam ser observados na prática e de forma bastante clara. Nos Estados Unidos, em 2013, a queda nas ações polinizadoras provocada pelo sumiço em massa de abelhas fez com que o preço das amêndoas aumentasse em 43% em comparação com o ano anterior.


De igual modo, na França a produção de cerejas foi muito afetada pelas mesmas razões, motivo pelo qual passaram a ser cultivadas na Austrália, um dos países que menos sofre com a falta desses animais. Já no Brasil, experimentamos perdas nas plantações de maçãs em virtude da escassez de polinizadores.


Neste contexto, é inegável que as abelhas desempenham um papel fundamental para que a agricultura, o meio ambiente e a própria economia não sejam afetados.


A falta de suas ações polinizadoras geram impactos diretos na agricultura (abelhas aumentam em 25% o rendimento das colheitas), meio ambiente e economia, provocando o chamado efeito cascata: afeta nossa dieta, a qualidade dos alimentos que consumimos, a produção e renda dos agricultores, e até mesmo o preço dos produtos que chegam ao consumidor final.


Por isso, preservar a continuidade dessa espécie e encontrar formas de contornar os atuais problemas que vem afetando sua existência, impedindo que realizem o tão necessário processo de polinização, é muito mais essencial do que imaginamos. É, na verdade, vital para nos mantermos bem alimentados e continuarmos vivendo em um planeta rico em biodiversidade e belezas naturais.

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